A cidade de Santa Rosa, no noroeste gaúcho, é o lar de uma sequoia sobrevivente de um experimento da NASA na década de 1970, por isso é conhecida com uma das Árvores da Lua.
As árvores da lua são as árvores crescidas a partir de 500 sementes levadas durante a missão Apollo 14 pelo astronauta Stuart Roosa em 1971. Roosa foi contatado pelo seu amigo Ed Cliff, que era o Chefe do Serviço Florestal na época, que lhe propôs a ideia de levar as sementes consigo. As sementes para o experimento foram escolhidas de cinco tipos diferentes de árvores americanas.
Enquanto os colegas Alan Shepard e Edgar Mitchell caminharam sobre a Lua, Roosa, ex-funcionário do Serviço Florestal dos Estados Unidos, orbitou no módulo de comando e cuidou das sementes que, posteriormente, foram germinadas na Terra e distribuídas aos quatro cantos do mundo. Quase todas as sementes germinaram com sucesso, e o Serviço Florestal teve cerca de 420 mudas depois de alguns anos. Algumas delas foram plantadas ao lado de seus equivalentes terrestres, que foram especificamente reservados como controles. Depois de mais de vinte anos não há diferença discernível entre as duas classes de árvores. A maioria das “árvores da Lua” foram dadas em 1975 e 1976 para muitas organizações florestais do estado, para serem plantadas como parte da celebração do bicentenário da nação. Como as árvores eram todas de espécies do sul e ocidentais, nem todos os estados receberam árvores. Um pinheiro foi plantado na Casa Branca, e algumas árvores foram doadas a vários países, entre eles o Brasil, Suiça e ao Japão, como um presente especial ao Imperador Hirohito.


A sequoia que foi doada ao Brasil é a única remanescente das sequoias em solo estrangeiro. Ela está há quase quatro décadas no bosque do Parque de Exposições Alfredo Leandro Carlson, em Santa Rosa, no noroeste do Rio Grande do Sul. De aparência frágil, com ramos tortos e descoloridos e tronco afinado (menos de 50cm de diâmetro), a árvore tem uma história de filme de ficção científica – com pitadas de drama.
A jornada da sequoia em solo gaúcho começa em 1981. Foi plantada em meio às comemorações dos 50 anos de Santa Rosa, comemorados durante a 5ª Fenasoja. O lance de marketing foi reforçado pela confirmação da presença do então presidente da República, João Baptista Figueiredo. Na solenidade em Santa Rosa, dia 13 de agosto de 1981, que contou com a presença do célebre ambientalista José Lutzenberger (1926-2002), o presidente Figueiredo ajudou a plantar a árvore lunar. Uma placa de metal registrando o feito histórico e reforçando a conscientização ambiental, com texto escrito pelo então prefeito, está até hoje sobre uma pedra em frente à árvore, no parque.
Apesar da ostentação com a qual foi recebida, a sequoia de Santa Rosa não teve uma vida de sombra e água fresca. Pelo contrário, foram inúmeras as vezes em que quase morreu por excesso de luz e até pelos longos períodos de seca na região. Considerada uma relíquia na cidade, a mudinha ainda viu o concreto tomar conta do entorno dela. Para facilitar a aproximação dos visitantes, um piso no formato da nave Apollo 14 foi construído no terreno e quem se aproximava tentava levar um pedaço da história. E assim, durante mais de duas décadas, a sequoia sofreu o corte de suas lascas por visitantes insatisfeitos apenas em vê-la – e depois sofreu com o descaso e o abandono.
Em 2006, a árvore foi reencontrada pelo paisagista Vilso José Cembranel, contratado pela prefeitura para fazer um novo projeto paisagístico do parque. Ao ver a sequoia quase gritando por ajuda, priorizou a sobrevivência dela.
A primeira medida foi cercar a árvore e destruir o concreto que a sufocava e impedia a penetração no solo da água da chuva. Seixos foram colocados no entorno e facilitaram a irrigação e a chegada dos insumos às raízes. O paisagista ainda exigiu a instalação de uma torneira nas proximidades para molhar a terra vermelha maltratada pelas secas constantes.
Outra medida drástica do paisagista quase o levou à delegacia. Sem retorno depois de insistir pela retirada dos dois postes que iluminavam a planta durante 24 horas, Cembranel passou a quebrar a pedradas as lâmpadas das luminárias. Só sossegou quando viu a iluminação ser retirada do entorno da árvore.


Houve a tentativa frustrada da prefeitura de plantar outra árvore próxima. A muda era de uma espécie do Japão e não resistiu à pressão da floresta. A sequoia americana voltou a lutar sozinha. Combalida e só, a árvore não chegaria ao aniversário de 30 anos se continuasse isolada no parque, concluiu o paisagista. Era necessário acabar com a solidão dela. Disposto a dar uma nova vida à sequoia, Cembranel pensou em obter outras mudas da mesma espécie para plantá-las no entorno. Não conseguiu uma sequer.
Foi preciso voltar aos livros para entender o processo de germinação da sequoia. Ainda havia a questão de que aquela semente tinha passado por uma experiência única e desconhecida de viver por dias no espaço.
Descobriu que a sequoia faz parte de um grupo que só germina onde há substâncias da planta deixadas no solo. Então, fiz uma nova tentativa usando a terra do próprio terreno onde está a árvore; usou areia, outros insumos e, principalmente, a terra contendo raízes. A iniciativa ajudou a produzir as primeiras 13 mudas, que só enraizaram depois de 12 meses. Nessa época, o paisagista já tentava havia dois anos fazer a primeira cópia. Na segunda leva, 17 árvores vingaram. Uma vitória comemorada por Cembranel até hoje, e que o fez ser reconhecido pelos moradores como o salvador da árvore lunar.
Ninguém mais conseguia separar Cembranel da sequoia. Tornou-se a missão dele dar vida à árvore solitária. E a amizade entre os dois pode ser observada nas visitas do professor ao cercado onde fica a sequoia. Longas conversas fazem parte do tratamento, que segue mesmo depois de 11 anos.


Como retribuição pelos cuidados, a sequoia passou a dar filhas ao paisagista. As primeiras herdaram o mesmo aspecto de cansaço da mãe. Uma delas, de quase 12 anos, vive próxima da matriarca e tem menos de um metro de altura. A alegria de Cembranel é contar que as netas da árvore lunar, filhas do primeiro ramo copiado, são mais verdes e demonstraram ambientação ao clima e ao solo gaúcho.
A quarta geração, identificada pelo paisagista como tataraneta, é considerada a de maior sucesso. A partir da árvore solitária, mais de 500 mudas já foram produzidas e distribuídas, como a que vigora na praça 10 de Agosto, no Centro de Santa Rosa.

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