As árvores, tal como animais, se comunicam umas com as outras, mesmo que não seja do habitual modo ‘humano’. Elas de fato sobrevivem à custa de cooperação e apoio solidário, que se traduz em trocas de nutrientes e suplementos, usando uma rede criada por fungos simbióticos conhecida como micorriza.
Micorriza é uma rede de filamentos de fungos chamados micélios, uma via rápida de tráfego de dados, que coloca em contato uma grande população de plantas diversas e dispersas. Essa via facilita a comunicação e colaboração entre os indivíduos, tal como a nossa internet.

Parece mesmo uma descrição da internet, mas estamos falando de fungos. Os fungos, sejam eles cogumelos ou não, são formados de um emaranhado de pequenos filamentos conhecidos como micélio. O solo está cheio desta rede de micélios que ajuda a conectar diferentes plantas no mesmo solo.
Muitos cientistas estudam a forma como as plantas usam essa rede de micélios para trocar nutrientes e até mesmo para se comunicar.
Cerca de 90% das plantas terrestres têm uma relação simbiótica com fungos, a micorriza. Com essa simbiose, as plantas recebem carboidratos, fósforo e nitrogênio dos fungos, que também as ajudam a extrair água do solo. Esse processo é importante no desenvolvimento das plantas.

Para o especialista em fungos Paul Stamets, essa rede é uma “internet natural” do planeta Terra. Sua tese é que ela coloca em contato plantas que estão muito distantes de si e não apenas as que estão próximas. Ele traça um paralelo com o filme Avatar, de 2009, em que vários organismos conseguem se comunicar e dividir recursos graças a uma espécie de ligação eletroquímica entre as raízes das árvores.
Só em 1997 é que foi possível comprovar concretamente algumas dessas comunicaçõeos via esse tipo de internet natural. Suzanne Simard, da Universidade de British Columbia, no Canadá, mostrou que havia uma transferência de carbono por micélio entre o abeto de Douglas (uma árvore conífera) e uma bétula. Desde então, também ficou provado que algumas plantas trocam fósforo e nitrogênio da mesma forma.
Simard acredita que árvores de grande porte usam o micélio para alimentar outras em crescimento. Sem essa ajuda, a cientista argumenta, muitas das novas árvores não conseguiriam sobreviver. Assim, as plantas parecem também trabalhar no sentido contrário ao observado por Charles Darwin, que enfatizava a competição por recursos entre espécies. Em muitos casos, espécies diferentes de plantas usam a rede para trocar nutrientes e se ajudarem na sobrevivência.
Os cientistas estão convencidos de que as trocas de nutrientes realmente acontecem através dos fungos no solo, mas eles ainda não entendem exatamente como isso ocorre.

Entretanto, uma pesquisa recente foi além. Ren Sem Zeng, da faculdade de agronomia da Universidade de Guangzhou, na China, conseguiu observar que algumas plantas conseguem formar uma rede protetora contra espécies invasoras.
A experiência foi feita com tomates plantados em vários vasos e ligados entre si por micorriza. Um dos tomates foi borrifado com o fungo Alternaria solani, que provoca doenças na planta.
Depois de 65 horas, os cientistas borrifaram outro vaso e descobriram que a resistência deste tomate era muito superior.
“Acreditamos que os tomates conseguem detectar o que está acontecendo em outros lugares e aumentar sua resposta à doença contra uma potencial patogenia”, escreveu Zeng no artigo científico. Ou seja, as plantas não só usam a internet natural para compartilhar nutrientes, mas também para formar um conluio contra doenças.
Para vários cientistas, a rede dos fungos é um exemplo de uma grande lição do mundo natural: organismos aparentemente isolados podem estar, na verdade, conectados de alguma forma, e depender uns do outros.

Comments are closed.