O prestígio que a Amazônia tem no Brasil é inegável. O desmatamento da maior floresta tropical do mundo é monitorado de perto. Políticas para a região são tema nos debates eleitorais. Há fiscalização e pressão popular. Infelizmente, outros biomas não gozam do mesmo prestígio como acontece com o cerrado brasileiro
Se o índice de desmatamento do cerrado brasileiro se mantiver como é hoje – cerca de 2,5 maior do que na Amazônia, o mundo poderá registrar a maior perda de espécies vegetais da história.


A tese é de um artigo de pesquisadores do Instituto Internacional para a Sustentabilidade e de outras instituições nacionais e internacionais, divulgado nesta semana na revista científica Nature.
O cerrado perdeu 46% de sua vegetação nativa, e só cerca de 20% permanece completamente intocado, segundo os pesquisadores. Até 2050, no entanto, pode perder mais 30% do que ainda resta. Isso levaria à extinção 1.140 espécies endêmicas, um número oito vezes maior que o número oficial de plantas extintas em todo o mundo desde o ano de 1500, o que seria uma crise sem proporções.
O desmatamento na região, de acordo com os pesquisadores, cresceu em níveis alarmantes por causa da combinação de agronegócio, obras de infraestrutura, pouca proteção legal e iniciativas de conservação limitadas.


O cerrado brasileiro é considerado um hotspot da diversidade, com mais de 4600 espécies de plantas e animais que não são encontrados em nenhum outro lugar do mundo.
A área de desmatamento do cerrado não é maior que a da Amazônia, mas a taxa de desmatamento é, e ele já perdeu metade da sua área.
Se o aumento recente do desmatamento da Amazônia, segundo os cientistas, influenciou o regime de chuvas no Brasil, contribuindo para a seca dos últimos anos, a perda do cerrado também faz sua parte, mas no solo e não na atmosfera.
Os estudiosos se referem ao cerrado como uma floresta de cabeça para baixo, porque dizem que as raízes lá são tão mais profundas que na Amazônia e na Mata Atlântica. Isso torna muito grande a capacidade do solo de absorver água, que acaba sendo armazenada nos lençóis freáticos.


Hoje, 43% da água de superfície no Brasil fora da Amazônia está no bioma, o que inclui três dos principais aquíferos do país, que abastecem reservas no Centro-Oeste, no Nordeste e no Sudeste.
SE continuarmos trocando a vegetação natural por soja, por exemplo, essa capacidade de reter água e alimentar os lençóis freáticos se perde. E vale lembrar que no Brasil crise hídrica é também é crise energética.
Os pesquisadores alertam também para o fato de que o desmatamento projetado para as próximas três décadas emitiria cerca de 8,5 bilhões de toneladas de gás carbônico na atmosfera.

Como impedir?
O artigo afirma que, restaurando áreas do cerrado que foram menos degradadas e são importantes para a biodiversidade, seria possível reverter até 83% do quadro de extinções previstas.
Áreas que não foram muito degradadas ou não foram desmatadas há muito tempo conseguem se regenerar, até por causa das raízes profundas e porque têm um banco de sementes. As outras precisariam de um esforço maior.
A equipe trabalha junto ao Ministério do Meio Ambiente para fazer um mapeamento das áreas que devem ser prioridade em um projeto de recuperação.


Mesmo assim, elas corresponderiam a apenas 3% do total do bioma. Seria o suficiente?
As culturas de cana-de-açúcar e de soja vão crescer 15 milhões de hectares nos próximos 30 anos, mas é possível usar áreas já desmatadas e pouco aproveitadas do cerrado para redistribuir este crescimento, evitando que a expansão da produção agrícola avance para territórios preservados.
A outra metade da equação é parar o desmatamento causado pela agropecuária.
Mais de 75% do cerrado já desmatado, segundo os pesquisadores, é utilizado em pastagem de baixa produtividade. Isso quer dizer que os produtores têm um boi por hectare, quando poderiam ter três. Se colocassem dois por hectare já liberaria terra suficiente para toda a expansão de soja e de cana, sem precisar fazer mais desmatamento.
O artigo diz que as políticas públicas necessárias para integrar agricultura e pecuária na região e evitar a perda do bioma já existem, e precisam apenas de integração.
O agronegócio brasileiro está numa encruzilhada no que diz respeito ao cerrado: pode se colocar como responsável pela maior crise de extinção de plantas registrada no mundo ou pode ser líder de em uma produtividade mais sustentável.
Assim, o futuro nos dirá se o agronegócio vai ser o grande vilão da história e perder acesso aos mercados globais ou se dará uma lição de sustentabilidade e mostrará que é possível crescer contribuindo para a conservação das espécies.

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