O fogo incontrolável. A árvore que não floresce, a fruta que seca no pé. O peixe sem alimento. O rio sem peixe. As enchentes invadindo as roças, afogando lavouras.
Se as mudanças climáticas afetam todo o planeta, a percepção dos povos da floresta traduz isso de maneira bastante particular. Ao contrário do cidadão que vive nas cidades que pode se orientar pelos ponteiros do relógio, os indígenas, extrativistas e quilombolas vivem em uma sintonia muito mais fina e delicada com a natureza: eles se regem pelas épocas de chuva e seca, por exemplo, quando é tempo de plantar ou de colher, de caçar ou de pescar. Portanto, estes povos sentem os impactos e consequências das alterações do clima em seu cotidiano de forma mais direta, imediata e muito mais aguda.

Essas percepções e inquietações protagonizaram os relatos de cerca de 80 lideranças indígenas, quilombolas e extrativistas presentes no Encontro Florestas e Energia, realizado pelo Instituto Socioambiental em Brasília. O objetivo do encontro foi reunir estes representantes para compartilhar suas visões e desafios para, juntos, fortalecer estratégias de adaptação e enfrentamento das mudanças climáticas.
O mundo está com febre, disse Maximiliano Menezes, da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira ao falar das mudanças climáticas e suas catastróficas consequências. Além de apontar essa febre que pode matar a todos nós e a tudo que conhecemos, ele descreveu como a mudança do clima come a floresta por dentro.

A metáfora da febre é pertinente. O mundo, com febre, além de mais quente, está desordenado. Seus processos biológicos, tal qual num acesso de altas temperaturas em um organismo vivo, estão comprometidos. As causas podem ser múltiplas e suas consequências desconhecidas e incomensuráveis.
A combinação entre um calor que impede que as plantas tradicionalmente utilizadas sejam cultivadas com sucesso, que provoca grandes e inusitados incêndios e um calendário de chuvas confuso, tem se traduzido em insegurança alimentar. As mudanças do clima geram exatamente isso: fome!

Povos e comunidades adaptados à floresta, que vivem há centenas de anos tirando seu sustento da floresta, agora passam fome, no meio dessa mesma floresta.
Será a mesma floresta?
Desmatamento, grandes obras de infraestrutura, como estradas e hidrelétricas, projetos de mineração comem a Amazônia pelas bordas. Mas os povos da floresta e suas experiências trágicas mostram que a floresta está sendo também comida por dentro.
Informações provenientes desses povos se somam aos dados coletados pelos cientistas, tudo para mostrar que a floresta não é mais a mesma. As diferenças no clima fazem com que espécies desapareçam e que outras, que ali não estavam, apareçam, como pragas que agora atacam as roças na floresta. Ciclos biológicos mudam, plantas florescem e frutificam em épocas diferentes, animais se reproduzem em outro ritmo.

O clima não é mercadoria, assim como água, terra e direitos também não são.
O Brasil precisa o quanto antes brecar o desmatamento e garantir os direitos dos povos indígenas e comunidades tradicionais, fundamentais para fortalecer a proteção das florestas e o equilíbrio climático.

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