O chamado bolor limoso (Physarum polycephalum) pode ser tratado assim, mas não é bolor.
O Physarum é um dos 700 micetozoários conhecidos que pertencem ao gênero das Amoebas. É um organismo unicelular, uma célula, que se junta com outras células, formando uma supercélula gigante, para maximizar seus recursos. Num bolor limoso, é possível encontrar milhares ou milhões de núcleos, compartilhando uma única parede celular, todos operando como uma única entidade. Em seu habitat natural, pode-se encontrar bolor limoso se alimentando em florestas, comendo vegetação apodrecida, mas também é possível encontrá-lo em laboratórios de pesquisa, salas de aula e até em estúdios de arte.


Ele pode ser visto a olho nu, parece uma bolha amarela. Ele se espalha e forma conexões com fontes de alimento crescendo cerca de um centímetro por hora.
Quando alimentado de um bom punhado de aveia, o bolor limoso parte em busca de novos territórios, em várias direções, simultaneamente. Quando reencontra a si mesmo, ele sabe que já está ali, reconhece que está ali, e recua e cresce em outras direções. É impressionante essa característica, de poder, de alguma forma, mapear seu território, conhecer a si mesmo e mover-se de forma visivelmente intencional.
Num labirinto, ele evita áreas vazias e becos sem saída e acaba fazendo seu trajeto pela rota mais curta e mais eficiente.


A conclusão do experimento foi que o bolor limoso possuía uma forma de inteligência primitiva. Outro estudo o expôs ao ar frio, em intervalos regulares. Ele não gostou. Ele não gosta de frio. Nem de pouca umidade. Eles fizeram isso repetidas vezes. Em cada uma delas, ele reagiu reduzindo seu crescimento. Contudo, no intervalo seguinte, os pesquisadores não o expunham ao ar frio, mas ele se antecipava e desacelerava, prevendo a exposição. De alguma forma, ele sabia que estava prestes a ser exposto ao frio de que não gostava. A conclusão do experimento foi que o bolor limoso era capaz de aprender.

Toshiyuki Nakagaki, pesquisador da Universidade Hokkaido, propôs um programa complicado para o organismo criar uma rede para pegar comida em 26 pontos pré-determinados, que correspondiam a cidades no mapa de Tóquio.
O resultado foi que, após um dia, o organismo criou uma série de conexões tubulares que se pareciam com as ligações de metrô entre essas cidades. Os pesquisadores descobriram que a rede do ameboide era tão eficiente quanto a rede do sistema de metrô.

Obviamente, uma série de pequenos tubos é muito diferente de uma grande malha ferroviária, mas por trás das diferenças existe um princípio comum do ponto de vista matemático. Usando o desempenho do organismo como guia, os pesquisadores criaram um modelo matemático que, segundo eles, pode ajudar no desenvolvimento de outras redes, como as utilizadas em comunicações móveis.

Ele é um computador biológico. Como tal, ele foi matematicamente modelado, analisado em algoritmos. Foi exposto a ondas de som, replicado, simulado. Em todo o mundo, equipes de pesquisadores estão decodificando seus princípios biológicos para entender suas regras de computação e aplicar esse conhecimento à eletrônica, à programação e à robótica.
A questão é: como esse ser funciona? Ele não possui um sistema nervoso central, não possui cérebro, mas é capaz de mostrar comportamentos que associamos a função cerebral. Ele é capaz de aprender, de lembrar, de resolver problemas, de tomar decisões.  Então, de onde vem essa inteligência?

Esta é uma microscopia, um vídeo aumentado em 100 vezes, acelerado cerca de 20 vezes, e dentro do bolor limoso há um fluxo rítmico pulsante, algo parecido com uma veia, que carrega material celular, nutrientes e informações químicas através da célula, correndo em uma direção e depois na outra direção. É essa oscilação contínua e sincronizada que permite que ele forme uma compreensão bastante complexa de seu ambiente, sem qualquer centro de controle de grande escala.
O bolor limoso é um tema fascinante. É biologicamente fascinante, computacionalmente interessante, mas também é um símbolo, uma forma que nos mostra como se engajar com ideias de comunidade, comportamento coletivo e cooperação.

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