Quis o destino que ela nascesse uma seringueira, na Rua Carlos Gomes com a Avenida Monteiro Lobato em Araraquara, bem antes dessas ruas existirem de fato nesse lugar. Era uma falsa-seringueira (ficus elástica), mas também fabricava aquele visgo que faz a borracha, embora em menos quantidade.
Um tempo depois, atrás dela, construíram uma igreja e em volta dela uma praça. Ela ficou lá no canto, perto da calçada.
Ninguém sabe se o homem a plantou ou se, por obra da própria natureza, ela brotou de uma semente trazida por um pássaro. Fato é que, aquela árvore, imponente nos seus mais de 30 metros de altura, mostrou-se forte e acolhedora. Era mais um soldadinho da natureza, que resistia em meio às ruas da cidade que cresciam à sua volta no bairro de São Geraldo.


Alheia às transformações a sua volta, a seringueira dedicou-se a sua vocação: ramificou-se, foi alargando seu tronco de uma forma curiosa só sua. Soltava raízes aéreas paralelas ao tronco, que logo se anexavam no tronco principal. Sua copa aumentava como um guarda-chuva aberto, fazendo sombra e diminuindo a temperatura abaixo dela.
Suas raízes encontravam forças por debaixo da calçada e assim ela continuou exercendo com dignidade seu destino de árvore.
Mas, a ela, não bastou ser digna. Saudável que era, ousou engordar mais e mais. Dizem que suas raízes deformaram a calçada, que elas atravessaram a rua e buscavam água e nutrientes prá lá do quarteirão, embaixo das casas.


Ao invés de cuidarem dela com a dignidade que merecia, cortavam suas raízes aéreas impedindo que ela se equilibrasse, cortavam seus galhos mais baixos porque eram aqueles que eles alcançavam por não terem escadas suficientemente altas para realizar uma poda de rebaixamento da sua copa como ela merecia.
Motosserras, usadas tantas vezes na cidade e guardadas sem limpeza, nem a desinfecção necessária, eram usadas nela transmitindo-lhe doenças.
E aí veio o abaixo-assinado. A árvore incomodava a população que pagava os impostos e exigia que algo fosse feito. Note-se: que algo fosse feito.
E veio então a sentença em forma de uma autorização Prefeitura Municipal: “…diante do exposto, autorizamos a supressão dessa árvore.”  Sem medir consequências, o poder público acredita piamente que as medidas radicais são mais rápidas e duradouras.


Não foi dessa vez.
Algumas pessoas lutaram por ela.
Poucas pessoas gostaram quando a ordem foi suspensa porque a árvore não estava doente.
Deveriam cuidar dela, pois ela tinha ainda muita vida pela frente apesar de já ser centenária. A vida de uma seringueira, mesmo sendo falsa como aquela da praça, é medida num tempo bem mais alargado que o nosso, coisa que os homens não entendem.
Mas os cuidados vieram sem competência e ela resistiu bravamente ao descaso, às podas mal feitas, à deficiência de análise técnica e atitudes sérias e competentes.

Naquela sexta feira de março, seis anos depois, a seringueira começou a anunciar que seu tronco que fora impedido de crescer não aguentava mais segurar os longos e grossos galhos de sua copa. E estalou e estalou, num contínuo avisar de que não aguentava mais.
Cinco horas depois, metade dela veio abaixo. Atravessou a rua, caiu em cima de um caminhão que idiotamente ali estava embaixo estacionado, monitorando o que ia acontecer, pois a realidade é que não sabiam o que fazer. Seus galhos atravessaram a rua e atingiram uma casa vazia.


Ninguém se feriu, mas o ódio se instaurou. Em tempos de tanta polarização, de tanta voz e tão pouco poder de atitudes e decisões corretas, todo mundo esbraveja e pede a condenação de outra árvore irmã na praça, sem se dar conta de como foi conduzido a pensar desta maneira.
É bem verdade que alguns foram contrários à ideia e lutaram por ela. Outros, talvez nem tenham tido tempo de formar opinião. Outros tantos concordam, cegos em julgamentos formatados pela força do coletivo.
Somos todos cidadãos do bem, sem intuito de agressão à natureza. Mas exigimos retorno em forma de cuidados competentes exigidos pela lei expressa nos impostos territoriais e urbanos que pagamos.
Solitária e sem advogado competente, lá se foi a nossa árvore.


Foi só mais uma, prá que tanto estardalhaço?
E foi tudo muito rápido. Cortaram-se os galhos da árvore em dois dias e deixaram apenas uma parte do tronco, que deverá ser removida nos dias subsequentes.
Atualmente, acredita-se que o pragmatismo traz benefícios de maneira geral. A calçada agora não será mais danificada, as casas não serão mais assoladas por raízes, muros não vão trincar.
Os desocupados não terão mais a sombra diurna nem a escuridão da noite para se acoitar.
Contudo, o preço é alto, pois diminui o bem viver. Hoje, os pássaros não terão mais aqueles poleiros nem farão seus ninhos; no lugar do verde, há mais um pontinho cinza no céu e a alguma certeza de que não era só mais uma árvore…

Selma Bertoncini

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